OPINIÃO: TRABALHADORAS DO CAMPO, EMPODERAI-VOS!

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Lado a lado somos à força de trabalho do campo.

Estamos lá no plantio, no manejo, na colheita. Estamos lá no encaixotar da produção, na viabilização da agroindústria, dispostas a carregar peso e também na hora de comercializar os frutos do trabalho. Mas muitas vezes, não somos nós, mulheres, que estamos à frente das organizações que representam e reivindicam em nome da agricultura familiar. Os homens ainda são a maioria esmagadora de presidentes, tesoureiros e líderes de sindicatos. Por vezes, não somos nem mesmo associadas ou cooperadas formalmente, invisibilizadas pela cultura que oprime a representatividade da mulher nos espaços sociais e políticos.

A diretoria de apoio às organizações rurais da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agrário tem a função de dar suporte às associações, cooperativas, coletivos e/ou movimentos sociais, de maneira a instruí-las sobre questões legais, de organização do quadro social, de gestão e também de viabilizar fomento. Recebemos todos os dias uma série de requisições destes grupos. As dificuldades são grandes e muito variadas, mas em comum fica sempre uma situação: o requerente em geral é um homem, raras são as mulheres pleiteando os atendimentos, porque raras também são as mulheres que ocupam cargos diretivos e de representação destas organizações.

Mas por que falar nesse tema na edição desta semana do quadro “opinião”?

Bem, porque ocupar os espaços de representatividade das organizações da agricultura familiar e reforma agrária é passo fundamental para garantir empoderamento feminino a um dos grupos mais fragilizados de mulheres, o das trabalhadoras rurais, e consequentemente dar visibilidade as problemáticas e pautas que as mesmas defendem.

A tradição de atrelar a propriedade da terra aos homens, bem como a cultura imposta de restrição do convívio da mulher ao ambiente privado evitando contato com o mundo público, além da sobrecarga da múltipla jornada de trabalho realizada pela maioria delas, executando praticamente todas as atividades domésticas, do trato dos animais, da ordenha das vacas, do cuidado do quintal e venda dos produtos cultivados por elas (cuja renda obtida, comumente é entregue ao marido), fatores estes todos que são meramente atrelados à rotina da “esposa de agricultor”, e não concebida, muitas vezes por elas mesmas, como trabalho.

No constante diálogo que temos tido com a “Articulação de Mulheres do Campo”, grupo composto por trabalhadoras de cerca de vinte movimentos e organizações de Minas Gerais, e autogestionado, são recorrentes falas quanto à invisibilidade do trabalho da mulher na agricultura familiar, principalmente no que se refere à produção, e a necessidade que elas veem, enquanto grupo politizado, de evidenciar o quanto a trabalhadora da agricultura familiar produz no seu dia-a-dia, de maneira a mostrar para a sociedade e para suas próprias companheiras esta realidade, bem como de desmistificar essa imagem social do trabalho da mulher considerado como mera ajuda. Segundo Carneiro, garantir a construção da identidade de trabalhadora é visto como um instrumento capaz de transformar a trabalhadora rural num sujeito político, conquistando assim espaços públicos.

Por tanto, é função dos gestores públicos e formuladores de políticas públicas, para além de atender as necessidades primeiras, tal como o acesso a terra e a viabilização de condições produtivas, garantir também que o Estado agregue ações governamentais que encorajem estas mulheres a assumirem-se enquanto trabalhadoras do campo, passíveis de direitos específicos e de disputa por espaços de representação para lutar pelo reconhecimento destas lutas.

Para que isto aconteça precisamos romper com as opções tradicionais de formação anteriormente disponibilizadas pela atuação governamental, e que em geral reforçam os papéis femininos, tal como os cursos de floricultura, panificação e confeitaria, sendo necessária a ampliação desse escopo de oportunidades. É preciso criar e ofertar também cursos com conteúdos econômicos, políticos, sociais e culturais, além da compreensão da desigualdade de gênero, para que os resultados que venham a partir daí influenciem na atuação política e social que as mulheres são capazes e precisam exercer, pois estes fatores também interferem na produção agropecuária delas.

O mecanismo de atuação das mulheres em organismos de participação representa uma forma de reconstruir o processo cultural de dominação masculina que ainda permeia nossa sociedade. Encorajá-las ao protagonismo das organizações que compõem é essencial para levar terceiras a se envolverem com o projeto político de mudança necessário na busca pela igualdade de gênero, seja no campo ou no meio urbano. Mas, principalmente, é importante via para garantir que pautas que não seriam tratadas pelos homens, tal como da violência doméstica e da menor remuneração, fiquem em evidência e sejam recorrentes nos debates dos espaços quando eles também forem ocupados por mulheres.

Se somos parte importante da agricultura familiar no dia-a-dia e na produção, por que não ser também da representação?

Emanuele Glaeser – Diretora de Apoio as Organizações Rurais da Seda.